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01/03/2021

ENCONTRO PARQUES EM REDE: PEDRA DE XANGÔ – ABAETÉ

Representantes das Comunidades de Terreiros das nações Angola, Jeje, Ketu e Umbanda do entorno da Pedra de Xangô receberam no sábado (20 de fevereiro de 2021) ativistas e lideranças religiosas do sítio natural sagrado do Abaeté. O encontro teve como objetivo reverenciar os orixás, voduns, inquices, caboclos e encantados e, sobretudo, fortalecer as conexões e redes em defesa dos espaços sagrados e dos espaços verdes na cidade de Salvador.

A Pedra de Xangô é uma formação geológica de mais de bilhões de anos, localizada na região central da cidade, em áreas de remanescentes de quilombos e do remanescentes do bioma Mata Atlântica. Outrora, o lugar era rota de fugas, portal da liberdade, moradas de indígenas e quilombolas e de divindades africanas e afro-brasileiras. Conta a tradição oral, que os negros escravizados fugiam das fazendas em Cajazeiras e passavam pela fenda e ia ao encontro da sonhada liberdade no Quilombo do Buraco do Tatu em Itapuã. Na atualidade, patrimônio cultural da cidade de Salvador, sede de um Parque Urbano, de uma Área de Proteção Ambiental – APA Municipal Vale do Assis Valente e de um Parque em Rede Pedra de Xangô, criados no PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano) de 2016.

O Abaeté é o maior remanescente de restinga de Salvador, abriga um patrimônio biodiverso único, além de inúmeras histórias e narrativas que constituem uma riquíssima colcha de retalhos. Uma paisagem, portanto, multifacetada, produzida por diversas formas de vida, agentes variados, humanos e não-humanos. A partir da década de 80, o lugar foi absorvido como parte do circuito turístico oficial de Salvador, sofrendo com a adoção de uma identidade visual facilmente reproduzível e consumível em massa. A degradação ambiental, a valorização fundiária, a higienização urbana, a exclusão de grande parte da comunidade circundante, dos processos de salvaguarda do ecossistema tem sido um problema a se agravar.

Hoje, à margem do circuito turístico oficial, a área é considerada decadente e perigosa pela maioria da população. Mas este complexo sistema de dunas e lagoas resiste ao estrangulamento urbano e luta para manter viva sua importância histórica e cultural, articulada ao mar e à praia, fonte de belezas e mistérios.

Verônica Raquel, mestra sambadeira, liderança do Movimento Nosso Quilombo e diretora de Patrimônio do grupo cultural As Ganhadeiras de Itapuã, emocionou-se diante da Pedra de Xangô, pela primeira vez em 36 anos: “Cada vez que é destruído um lugar nosso, um território nosso, um pedaço da gente também é consumido. Não como a chama de Xangô, que é a chama da Justiça, mas como esse fogo consumidor da capital, que acaba com a gente, que tira nossos locais de cura, nossos pontos de revitalização. Se esses lugares adoecem, como é que vamos nos curar?”

Eraldo Souza da Paixão, Ogan do Terreiro Ibá Faroumim, presente como representante do Coletivo de terreiros do entorno do Abaeté, destacou a importância da aliança que o Povo de santo travou com o FPI- Fórum Permanente de Itapuã e o grupo Guardiãs e Guardiões do Abaeté, desde o marco histórico do dia 27 de setembro de 2020, quando fizeram um Padê para Exu, em frente ao Monumento da Sereia, além de um Xirê caminhante, rituais e reverências à Ntooto/ Onilé e à árvore de Loko/ Iroko, Tempo, manifestando-se dessa maneira, contra a construção da EEE- Estação Elevatória de Esgoto às margens da Lagoa do Abaeté, uma obra da Governo do Estado.

Ciro dos Santos Rocha Júnior, historiador e educador afro-indígena, mostra sua pesquisa em Pedagogia Griot mostrando um mapa pintado artesanalmente. Explica que está criando uma trilha, caminhos cruzados entre os territórios, fala das pedras principais, Itapuã e Pedra de Xangô, do terreiro que faz parte em Cajazeiras, onde é filho de santo, de suas memórias em trânsito entre os lugares e do desejo por outras versões da história: “Temos que trazer a nossa história, para que nossas crianças possam ter mais força, poder e autonomia” Sua visão de Patrimônio passa, portanto, por um posicionamento como pai e mestre no espaço familiar, comunitário e escolar.

Clara Domingas, artista e permacultora de Itapuã, mestra em Antropologia pela UFBA, pesquisa sobre as transformações urbanas e impactos no ecossistema de restinga, através de estudos multi-espécies com pescadores e habitantes da APA do Abaeté. Juntos realizam o “Museu dos Ossos” uma plataforma aberta e performativa que mobiliza memória e imaginação em torno da “cultura de areia”, termo criado no encontro entre eles para tratar dos patrimônios bio-culturais do território. Sua pesquisa serviu para fundamentar o pedido de Tombamento Municipal do Abaeté como Patrimônio Histórico e Cultural da Cidade de Salvador. Como representante dos coletivos ativistas socioambientais do território Itapuã/ Abaeté, abraçou o apoio de Maria Alice Silva /GT Pedra de Xangô para, conjuntamente, desenvolver propostas que objetivam potencializar o processo de Tombamento (em rede) do Abaeté.

Destaca: “Viemos fazer pontes e fortalecer o trabalho coletivo de regenerar (geo)histórias e legados culturais, parte do que estamos chamando de Patrimonialização em rede. Apostamos nos modos colaborativos de produzir paisagens. Apostamos na conectividade e no reencantamento dos territórios. A criação de parques e APAs, à exemplo do Parque da Pedra de Xangô e da APA Assis Valente, construídas a partir da demanda e luta da comunidade, é referência e inspiração para a defesa de outros sítios sagrados e áreas verdes da cidade. Estamos em reunião. É tempo de “retomada” ancestral, termo cosmopolítico afro-brasileiro, cuja força brota como fluxo energético e conexão entre diferentes, como capacidade de fazer cruzamentos e também de criar multiplicidade, uma potência biodiversa transformadora.”

Tata Mutá Imê líder religioso do Terreiro Mutalombo Yê Kaiongo e membro do GT Externo de implantação do Parque Pedra de Xangô, representando a nação Angola, aprovou a iniciativa e falou sobre a importância dos terreiros permanecerem unidos em defesa desses e de outros espaços sagrados fundamentais para a continuidade do candomblé.

Yá Egbé, Sônia Mendes do Ilê Asè Osalufã, nação Ketu, também, membro do GT Externo de implantação do Parque Pedra de Xangô discorreu sobre o trabalho em parceria desenvolvido pelo poder público, sociedade civil (comunidades de terreiros), e academia em prol da defesa e salvaguarda do monumento sagrado.

Vidaxò Azonsì Pedro Victor, vodunsì do Terreiro Vodun Kwe Tò Zò, nação Jeje e Conselheiro Municipal de políticas culturais, titular da região de Cajazeiras destacou que: “é de suma importância para o nosso povo a Salvaguarda de todos os espaços culturais de práticas coletivas, principalmente os que dizem respeito à religiosidade afro baiana. Essas articulações são mais que necessárias para evitar processos de aculturamento e depredação desses patrimônios”.

Geison de Morais, umbandista, afirmou que “momentos como este reforçam a união do povo de santo. Temos aqui candomblecistas, simpatizantes e umbandistas. É uma oportunidade de mostrar que estamos conectados e que a pedra de Xangô e os pontos de força da natureza devem ser preservados em prol do povo e da ancestralidade, para os Orixás, sem politização, sem egocentrismo.

Maria Alice Silva, autora do livro Pedra de Xangô: um lugar sagrado afrobrasileiro na cidade de Salvador agradeceu a visita dos ativistas e religiosos do Abaeté, falou da emoção de compartilhar as experiências e vivências adquiridas nos caminhos percorridos para o tombamento municipal da Pedra de Xangô e criação das unidades de Conservação junto ao PDDU – Plano Diretor de Desenvolvimento Urbanos de 2016. Concluiu que: São muitos os enredos, caminhos, trilhas e temporalidades que integram as narrativas sobre Pedra de Xangô de Cajazeiras.

Como bem dissera, o griot Everaldo Duarte, do grupo Baobá “existem histórias e estórias caminhando em paralelo”. É necessário contemplar todas, por isso, Pedra de Xangô é enredo, é rede. Pedra de Xangô “terra remanescente de quilombos, quilombo contemporâneo, um terreiro, lugar da história e memória do povo negro da diáspora em constante luta pelo direito à cidade, pelo direito à vida em todas as suas dimensões” (SILVA, 2019:140). Finalizou afirmando que o encontro é um momento histórico, de renovação de esperança que deve ser replicado todos os anos.

Texto: Clara Domingas e Maria Alice Silva